“Identificar tendências permite vislumbrar caminhos para o posicionamento estratégico de empresas e organizações, independente da área de atuação.”

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Tendências - A antecipação do Futuro | Por Priscila Vanzin


Tendências são realidades prospectadas que antecipam um futuro construído através de hipóteses. Existem fragmentos do que seriam ligações e através deles acontece a construção de diversas relações, interpretadas através de uma narrativa.
Quanto mais elementos de uma estética e/ou comportamento são identificados, maior a possibilidade da tendência se tornar crível a atingir mais pessoas. É preciso partir das informações atuais e pensá-las sob diversos ângulos para que se possa projetar o futuro. Essa leitura se dá através da observação de sinais que expressam o que está acontecendo no momento, aliado à memória.
“Identificar tendências permite vislumbrar caminhos para o posicionamento estratégico de empresas e organizações, independente da área de atuação.”
Tipos de tendências
  • Ciclo curto
São mecanismos de mercado utilizados para imprimir ritmo a ele. A moda imprimiu esse ritmo de renovação constante. Elas não têm profundidade de reflexão, mas possuem tantos elementos e informações que acabam se tornando críveis. Na realidade as coisas não se renovam assim tão rapidamente, mas é preciso gerar essa idéia.
As tendências de ciclo curto são narrativas curtas, pensadas por quem domina esses mecanismos. Ex. birôs de estilos, feiras de matérias primas, empresas químicas.
No Brasil um grande exemplo desse tipo de tendências são os modismos lançados nas novelas. Os figurinistas sabem que estão propondo coisas novas e também contam com empresas que patrocinam. É todo um sistema que imprime o ritmo da moda.
  • Ciclo longo – macrotendências
Giram em torno de 18 anos. Tem seis anos de desenvolvimento e 12 anos de latência. Nesses 12 anos essa sensibilidade que proporcionou o desdobramento da macrotendência fica dormente. Tendências sociais também podem ter ciclos mais longos, de 50 a 100 anos.
Atualmente estamos num momento de ambivalência, já se passou a primeira década do século. A ideologia do século XX foi a do consumo, como forma de dar subsídios para a própria sociedade se desenvolver. Essa ideologia do consumo acabou gerando a fragmentação. Hoje essa rapidez chegou no limite, que é a linguagem que usamos para nos comunicar nos meios digitais, que é uma linguagem cortada. Hoje cada experiência do cotidiano é uma vivencia em si mesma. Vivemos em fragmentos do tempo.
  • Microtendências
Iniciam-se em microambientes relacionais. São fenômenos endêmicos que potencialmente podem se transformar em epidêmicos.
Está ligado ao conceito de tribos, mais precisamente, tribos urbanas, que apresentam formas de desenvolvimento circunscrita por alguns indivíduos que arrumaram jeitos de expressar essa subjetividade que os liga. Interpretação feita por um pequeno coletivo. Dependendo da força desse coletivo essa tendência pode ter força que reflita em indivíduos que se projetem nessa estética através de roupa, ambiente, musica, arte.
Paula Visoná lembra que “de tempos em tempos nós resgatamos a transgressão dos punks, buscamos essa linguagem para mostrar que queremos transgredir novamente.” Mas o sistema acaba transformando em consumo massificado e esvaziando o sentido da mensagem. Ou você já esqueceu da grosseira invasão das tachas pelas fast fashions?
De onde surgem as tendências?
As tendências surgem de nós mesmos. São produzidas por nossas interrelações. Construímos os fenômenos e alimentamos as sensibilidades que dão subsídios às tendências sociais.
Bens culturais são formas de expressarmos essa sensibilidade. São formar de darmos limites às subjetividades.Ligar isso é construir as tendências e entender como construir os desdobramentos futuros.
Hoje em dia as tendências são construídas através de trocas rápidas que independem de um legitimador, essa dinâmica é chamada Trickle across.
O melhor exemplo disso são as redes sociais. O que as pessoas vivenciam nessas plataformas é de responsabilidade delas. É tudo muito fluido. Por isso, é importante monitorar tribos urbanas – onde as trocas são mais constantes. Etnografia ou netnografia nos dão subsídios pra entender como essas trocas estão operando.
“Tendências são construídas a partir de fragmentos (sinais). Esses fragmentos funcionam como diálogos: textos que visam substituir fenômenos por códigos que podem ser decodificados e gerar novos sentidos”.
Precisamos entender como a sociedade vai se desenvolvendo de tempos em tempos. Tudo pode ser um sinal do que esta acontecendo e nos ligando. Acabamos codificando a sensibilidade que nos liga. Formalizamos, codificamos, lemos e identificamos o zeigeist.
Um quadro, uma musica, uma exposição de fotos, um prédio, tudo pode ser lido. Artefatos são narrativas projetuais que podem subsidiar projetos, levando a eles características que possam ser devolvidas aos indivíduos. Quando um artefato me leva a interpretação do que estou vivenciando, acabarei achando esse artefato mais interessante. É algo que se dá inconscientemente. Interpretar, dar limites e devolver para os indivíduos que acabaram se reconhecendo e dialogando com isso.
Como é possível construir tendências?
Para a construção de tendências utilizam-se análises qualitativas. Trabalha-se com hipóteses, recortes. A partir disso se ligam os dados mais recorrentes, que serão analisados posteriormente. Entender o que está acontecendo e cruzar com o que já aconteceu para entender o que vai acontecer.
Criar elos analíticos para chegar as chaves conceituais. Assim, cria-se categorias para colocar as informações. Após isso parte-se para a interpretação.
O diferencial de quem trabalha seriamente com tendências é dar uma interpretação baseada em todas as leituras possíveis. É dar um conhecimento amplo do que já aconteceu, além de um conhecimento que extrapola o setor onde se está inserido para tornar a narrativa crível. Se trabalho com moda, por exemplo, o ideal é buscar subsídios em outros campos como arte, design, arquitetura… para só depois inseri-los no contexto onde se quer aplicar.
Para entender as subjetividades de nosso tempo e construir narrativas futuras, além de sensibilidade é preciso repertório. Então, vale prestar atenção em tudo que está a nossa volta, sem preconceitos.
Pri. | @all_ice